Bandeira LGBTQIA+ — Foto: Pixabay

Segundo levantamento do IBGE, capital tem maior número proporcional desse grupo no país: 66 mil pessoas, ou 2,9% da população adulta. Média no Brasil é de 1,8%.

Por Caroline Cintra, g1 DF

 

O aumento na representatividade LGBT e a busca pela felicidade estão entre os fatores citados por especialistas para alta proporção de pessoas que se declaram bi ou homossexuais no Distrito Federal.

Um levantamento inédito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado na quarta-feira (25), aponta que a capital tem o maior número proporcional de pessoas que se identificam como bi ou homossexuais em todo o país. Esse público é composto por 66 mil pessoas, e representa 2,9% da população maior de idade na capital.

 

A pesquisa foi feita com base em dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2019. O índice em Brasília ficou bem acima da média nacional, de 1,8% da população. Segundo o estudo, em todo o país, 2,9 milhões de pessoas se autodeclararam homo ou bissexuais.

IBGE aponta que, de acordo com os dados da pesquisa, existe uma proporção maior de gays e bissexuais entre pessoas com maiores níveis de escolaridade e rendimento, entre os mais jovens, e pessoas que residem em área urbana.

Segundo o instituto, o Distrito Federal é a unidade da federação conhecida por uma população com maior escolaridade e rendimento, portanto, “esse é um resultado compatível com a característica socioeconômica do DF”.

 

Representatividade

 

Professora do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora sobre gêneros e sexualidade, Valdenízia Peixoto afirma que não existe uma resposta precisa para justificar a maior frequência de pessoas que declaram a bi ou homossexualidade no DF. No entanto, ela acredita que o aumento da representatividade LGBT pode ser um dos fatores.

“Houve alguns avanços jurídicos e legislativos aqui no DF. Pela primeira vez, temos um deputado distrital assumidamente gay na Câmara Legislativa. Cantores e famosos falam mais sobre representatividade, e as pessoas começam a se reconhecer e sentem uma segurança para se autodeclarar”, diz a especialista.

A professora explica que a segurança de reconhecimento é diferente da segurança física. “Ainda temos muitos casos de violência contra pessoas LGBTQI+. Não teve avanço na legislação que garanta a segurança desse público. Mas, existe uma segurança de ter gestores, artistas, pessoas de influência que lutam pela causa”, diz.

Outro aspecto que a pesquisadora destaca é a própria inclusão da autodeclaração de gênero e sexualidade em pesquisas importantes, como a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD). No início do mês, o levantamento apontou que 3,8% dos brasilienses de declararam LGBT.

“Em 2021, a gente sabe que a PDAD incluiu a identidade sexual, identidade de gênero. Assim, as pessoas se sentem mais seguras em se tornar mais visíveis”, afirma Valdenízia.

 

Busca pela felicidade

 

Para o especialista em direito LGBTQIA+ e professor de direito do UniCeub Tédney Moreira, a sociedade precisa aprender a conviver com a diversidade e entender que, “no fundo, o que toda pessoa busca é a felicidade”.

Ele destaca que a identidade de gênero e o exercício livre da sexualidade são direitos essenciais à subjetividade humana.

“Tudo isso compõe o conjunto de direitos indispensáveis da personalidade. Relacionam-se ao modo como as pessoas se veem e como gostariam de ser acolhidas pela comunidade, bem como sobre como desejam vivenciar seus afetos”, diz o professor.

 

Levantamento

Em 2019, 1,2% da população adulta se declarou homossexual e 0,7% bissexual no país — Foto: Freepick/IBGE/Divulgação

 

Segundo o levantamento do IBGE, a população do Distrito Federal acima de 18 anos, em 2019, foi estimada em 2,3 milhões de pessoas. Desse total:

  • 2,1 milhões(92,2%) se autodeclaram heterossexuais
  • 113 mil(4,9%) se recusaram a responder ou disseram que não sabiam
  • 66 mil(2,9%) se autodeclaram homossexual ou bissexual

As informações foram colhidas por meio da pergunta “Qual é a sua orientação sexual?”, incluída pela primeira vez no questionário da pesquisa.

 

Atrás do DF, os estados com maior população homo ou bissexual foram Amapá, com 2,8%, e o Amazonas, com 2,3%. As últimas posições foram ocupadas por Tocantins e Pernambuco, com 0,6% e 1%, respectivamente.

 

IBGE pondera que “o fato de uma pessoa se autoidentificar como heterossexual não impede que ela tenha atração por ou relação sexual com alguém do mesmo sexo”. Segundo o instituto, para captar em detalhes a efetiva orientação sexual da população “seria necessária a investigação do comportamento e da atração sexual, conceitos esses diferentes da autoidentificação”.