Raphael Broocke, porta-voz da PMDF, em entrevista à TV Globo — Foto: TV Globo/Reprodução

Docentes rebateram declarações de porta-voz da corporação, que disse que polícia é ‘discriminada’ pelos servidores civis. Caso ganhou repercussão após vídeo que mostra PM ameaçando ‘arrebentar’ adolescente.

Por Pedro Alves e Ingrid Ribeiro, g1 DF e TV Globo

Porta-voz da PM diz que polícia é ‘discriminada’ por professores em escola do DF

O debate sobre a presença de militares no Centro Educacional 01 da Estrutural (CED 01), no Distrito Federal, continua. Depois que o porta-voz da Polícia Militar, capitão Raphael Broocke, disse à TV Globo que a corporação era “discriminada” pelos servidores civis da unidade, professores rebateram as acusações nesta sexta-feira (13) (assista acima).

O caso ganhou repercussão depois que um PM foi filmado ameaçando “arrebentar” um aluno de 14 anos (relembre abaixo). Em nota, os docentes repudiam as declarações e alegam que “nunca houve o diálogo” mencionado pelo porta-voz. Dizem também que vêm “incansavelmente, trabalhando dia-a-dia na moderação desse conflito, muitos, sensíveis à realidade dos estudantes”.

 

Questionada pelo g1 sobre a nota dos professores, a Polícia Militar não tinha se manifestado até a última atualização desta reportagem. O caso é apurado pelo Ministério Público e pela Câmara Legislativa do DF (CLDF).

 

Entrevista do porta-voz

Raphael Broocke, porta-voz da PMDF, em entrevista à TV Globo — Foto: TV Globo/Reprodução

O CED 01 da Estrutural tem gestão compartilhada entre a Secretaria de Educação e a Polícia Militar desde 2019, após votação da comunidade. Os professores são responsáveis pela parte educacional, e os militares, pela disciplinar.

Na entrevista concedida à TV Globo na quarta-feira (11), o capitão Raphael Broocke disse que, no local, “a Polícia Militar teve algumas resistências, principalmente por parte dos servidores públicos civis”.

“Ou seja, os professores civis não aceitavam, de antemão, ou seja, mesmo antes de conhecer o programa, a presença da Polícia Militar, que foi unânime em uma consulta pública entre pais, alunos maiores de 18 anos e servidores”, diz Raphael Broocke.

Ainda segundo o militar, a resistência dos professores influencia os estudantes. “A PM constantemente tenta o diálogo, mas de antemão já é naturalmente discriminada por esses professores, esses servidores civis, que têm dificultado muito, principalmente na questão disciplinar, que se reflete nos alunos, nas atitudes dos alunos.”

Nota dos professores

Em nota (veja íntegra ao fim da reportagem), assinada por 10 educadores, os professores afirmam que “nunca houve o diálogo mencionado pelo porta-voz”.

“O maior dos contatos entre corpo docente e policiais aconteceu em reuniões de abertura de ano letivo, nas quais os policiais foram apresentados. Isso sendo na pessoa dos Diretores Disciplinares apenas, ou em outra pessoa que por ventura os representasse. Pois nunca, em momento algum, foram nos apresentados os Monitores Disciplinares, seja nominalmente, seja com uma fala mais completa”, diz o texto.

Fachada do CED 1 na Estrutural — Foto: Marília Marques/G1

Os professores afirmam ainda que “identificamos sim, conflito de interesses na postura da maioria deles, quando são incapazes de ver nos estudantes seres em formação, quando não entendem a escola como espaço de aprendizagem, no qual a pedagogia precisa ser o norteador de ações”.

“Não podemos nos calar, enquanto adultos formadores, quando vemos a violência assumir o lugar da dialética e da didática”, escrevem na nota.

O grupo também pede que a corporação se retrate pelas declarações do porta-voz que, para os educadores, culpam os professores pelas falhas no modelo de gestão.

“Na posição de mediadores que assumimos desde o início dos conflitos registrados em nossa escola, não podemos aceitar que culpabilizem professores por lutar por respeito e dignidade dentro da Escola. Nunca houve e nem há discriminação à equipe disciplinar por parte do corpo docente, e nem é adequado que o posicionamento da Polícia Militar do Distrito Federal seja esse, de responsabilizar os professores.”

Ameaça e repercussão

PMs ameaçam estudante no CED 1 da Estrutural, no DF

A polêmica sobre a gestão compartilhada de escolas com militares voltou à tona depois que um PM foi filmado ameaçando “arrebentar” um estudante de 14 anos, no CED 01 da Estrutural (assista acima). O caso ocorreu durante uma manifestação contra a exoneração da vice-diretora Luciana Pain, que era crítica à atuação dos militares.

Nas imagens, é possível ver que três policiais levaram um aluno para dentro de uma sala de aula vazia, onde um deles abordou o jovem de 14 anos.

“Bota a mão pra trás, você. Tô falando sério. Tu não é machão? Lá em cima tu não é machão? No meio dos outros tu não é machão?”, disse o militar.

O estudante questionou se ia apanhar dentro da escola, e o PM respondeu: “Se precisar. Você quer ver? Vem me ameaçar… Eu te arrebento”.

Segundo um aluno do CED 1 da Estrutural, os alunos são tratados como criminosos dentro da escola. “Aqui parece que nós é (sic) um bando de bandido, não é aluno não. Eles trata nós (sic) não é como aluno não, é como bandido”, diz.

Supostas conversas entre estudantes do CED 1 da Estrutural, no DF — Foto: Reprodução

Já a PM diz que encontrou mensagens entre alunos dizendo que levariam gasolina e isqueiro, e que depredariam a escola na manifestação. Também divulgou imagens de sete facas apreendidas na unidade de ensino ao longo do ano letivo.

Facas que, segundo a PM, foram apreendidas em escola na Estrutural, no DF — Foto: PMDF/Reprodução

MP muda posição

Após a polêmica, o Ministério Público do DF (MPDFT) revogou uma nota técnica, de 2019, que considerava o projeto Escola de Gestão Compartilhada legal.

No documento, divulgado na quarta (11), a Promotoria de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc) recomenda “que toda a equipe disciplinar do Centro Educacional 1 da Estrutural seja afastada”. A equipe disciplinar é composta pelos militares.

Segundo os promotores, o modelo cívico-militar “fere os princípios constitucionais da reserva legal e da gestão democrática do ensino público”, seguindo entendimento também do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais (CNPG).

A Secretaria de Educação não é obrigada a acatar as recomendações. Em nota, a pasta disse que recebeu do MPDFT um ofício solicitando informações técnicas sobre a implantação e desenvolvimento do programa e que “elabora a resposta junto às áreas responsáveis”.

Veja íntegra da nota dos professores sobre s situação:

“O corpo docente abaixo especificado do Colégio Cívico Militar do Distrito Federal (CCMDF) – CEd 1 da Estrutural, declara repúdio e indignação às declarações feitas pelo Sr. Raphael Brooke, porta-voz da Polícia Militar do Distrito Federal, que de maneira infeliz atribui o fracasso no trabalho da Gestão Disciplinar, aos docentes civis dessa Unidade de Ensino, quando em manifestação pública declara: “A PM constantemente tenta o diálogo, mas de antemão já é naturalmente discriminada por esses professores, esses servidores civis, que têm dificultado muito, principalmente na questão disciplinar, que se reflete nos alunos, nas atitudes dos alunos.”

Os profissionais de Educação do CCDFM-CEd 1 ao contrário do que afirma o porta-voz, vem, incansavelmente, trabalhando dia-a-dia na moderação desse conflito, muitos, sensíveis a realidade dos estudantes, que após dois anos de Pandemia, regressaram ao ambiente escolar, buscando reabilitar suas capacidades de convívio social, numa fase (adolescência) em que os conflitos internos emergem.

Destacamos inclusive se tratar de uma realidade nacional, quando vemos estudos recentes, que apontam como em várias regiões do país as escolas vêm enfrentando um cenário complexo, nos quais, que em muitos momentos eclodem em episódios de violência.

Cabe saber, que nunca houve o diálogo mencionado pelo porta-voz. O maior dos contatos entre corpo docente e policiais aconteceu em reuniões de abertura de ano letivo, nas quais os policiais foram apresentados. Isso sendo na pessoa dos Diretores Disciplinares apenas, ou em outra pessoa que por ventura os representasse. Pois nunca, em momento algum, foram nos apresentados os Monitores Disciplinares, seja nominalmente, seja com uma fala mais completa.

Identificamos sim, conflito de interesses na postura da maioria deles, quando são incapazes de ver nos estudantes seres em formação, quando não entendem a escola como espaço de aprendizagem, no qual a pedagogia precisa ser o norteador de ações. Não podemos nos calar, enquanto adultos formadores, quando vemos a violência assumir o lugar da dialética e da didática.

Sabemos também que os princípios das duas instituições, Segurança e Educação, são distintos, o que impacta diretamente na formação e habilitação de cada profissional em seu campo de atuação. A Educação forma, a Segurança trabalha na prevenção e contenção da criminalidade.

Na posição de mediadores que assumimos desde o início dos conflitos registrados em nossa escola, não podemos aceitar que culpabilizem professores por lutar por respeito e dignidade dentro da Escola. Nunca houve e nem há discriminação à equipe disciplinar por parte do corpo docente, e nem é adequado que o posicionamento da Polícia Militar do Distrito Federal seja esse, de responsabilizar os professores.

Esperamos uma retratação da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, e que os novos encaminhamentos sejam no sentido de buscar soluções para os conflitos gerados. A realidade dentro da escola é de instabilidade e vulnerabilidade para estudantes e profissionais da Educação, e o papel da Direção Disciplinar é resguardar esses atores da educação, que sua casa, a escola, seja um espaço de formação.

Não cabe mais ataques aos Estudantes e Professores, a escola é nossa casa, e a promoção da educação crítica e reflexiva vai exigir de nós a quebra de paradigmas que alicerçam preconceitos e desigualdades.

Os professores merecem respeito. Nossos estudantes merecem respeito. A Comunidade da Cidade Estrutural merece paz social para seus filhos em formação.

Nívea Mendonça F. Borges

Luciana Martins de Medeiros Pain

Thaisa Borges de Magalhães

Meire Helen de Lima Cordeiro

Barbara Ihorrana Alves Lacerda Brasil

Adriana Szervinsks Tavares

Matheus Delaine Teixeira Zanetti

Sandra Leila de Sousa

Victor de Lima Silva

Karine Thais de Freitas”