Millennials’ são os principais promotores do idioma, que começa a ser ouvido no Congresso após a posse do novo Governo de Pedro Castillo

 

Pilar Revolledo tem 30 anos e é médica residente em um hospital público de um bairro pobre de Lima. Num plantão de fim de semana, uma paciente falante de quéchua, de 86 anos, prestes a ser operada, no entendia termos como amputação, anestesia, via endovenosa. Não se acalmava quando as enfermeiras lhe diziam “manam, manam” (“não, não”, em quéchua). “Ama manchacunckichu” (“não tenha medo”), pediu então a cirurgiã, e a mulher respondeu “añay, mamay” (“obrigado, mamãe”).

Revolledo conta que também fez um curso de quéchua quando estudava Medicina na Universidade Nacional San Agustín, em Arequipa. “Mesmo antes da atual conjuntura, sempre considerei que é necessário abraçar nossas raízes e o que somos”, acrescenta. A médica se refere ao debate sobre o uso do quéchua no Congresso. Em seu primeiro pronunciamento no plenário, o primeiro-ministro Guido Bellido fez uma saudação em quéchua de dois minutos, enquanto alguns deputados o interrompiam aos gritos. A presidenta do Congresso, Maricarmen Alva, solicitou que falasse em espanhol, porque não estava sendo entendido. Bellido respondeu em sua língua materna que, segundo o artigo 48 da Constituição, o espanhol e o quéchua são línguas oficiais no Peru. O primeiro-ministro cresceu como camponês no distrito da Livitaca, em Cusco, e sua mãe não fala espanhol.

De volta ao Congresso na sexta-feira passada, antes da votação de nomeação do Gabinete, Bellido esclareceu que usou sua língua materna “não com o propósito de renegar ninguém, e sim para integrar todos os habitantes do Peru, sobretudo os chamados povos originários”. Explicou que desejou usar a língua que sua mãe ensinou na infância “em homenagem a muitos peruanos que morreram sem entender uma palavra do que se dizia aqui”. Entretanto, congressistas de oposição, formadores de opinião e personalidades midiáticas questionam o primeiro-ministro por usar o quéchua como uma forma de “provocação” e de “divisão entre os peruanos”.

A jornalista e escritora Sonaly Tuesta, que há duas décadas percorre o país documentando os costumes e rituais fora da capital, destaca que quase quatro milhões de pessoas (14% da população) falam quéchua no Peru. “Estamos em outro cenário: não só o Congresso, mas também os meios de comunicação precisam estar preparados cada vez que uma pessoa fala em quéchua; uma intérprete se torna representante das pessoas que estão escutando, e não é uma ofensa [usar o idioma]”, comenta Tuesta. Ela destaca que, além do primeiro-ministro, “há um bom grupo de jovens que têm maior consciência”, como Solischa, nome usado na internet por uma camponesa e antropóloga que se inspirou em um jovem músico difusor do quéchua nas redes sociais, morto em 2018, para promover sua cultura e sua língua materna no Facebook, Twitter e YouTube.