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Expressões como “afronta à soberania nacional”, “humilhação” e “vergonha” não constam do dicionário da maioria dos políticos

 

Se Bolsonaro, em reunião com o presidente Joe Biden, referiu-se a Lula como um esquerdista radical, refratário aos interesses americanos, dispensou-se de dizer que ele, Bolsonaro, seria justamente o oposto caso fosse reeleito. Elementar, meus caros.

Só chefes de republiquetas seriam capazes de se comportar diante de Biden, ou de qualquer outro mandatário de Estado poderoso, como Bolsonaro se comportou, e até eles sabem que haveria canais mais adequados e seguros para se obter esse tipo de ajuda.

Crime de responsabilidade, de acordo com a Constituição, é motivo para que se abra um processo de impeachment contra quem o cometeu. Arthur Lyra (PP-AL), presidente da Câmara, coleciona mais de 100 pedidos de impeachment contra Bolsonaro.

Da gaveta onde eles repousam, nenhum jamais saiu ou sairá. Lyra e quase todos os deputados estão no bolso de Bolsonaro. No início do governo, dizia-se que os militares atuariam como curadores de um político que só “falava merda” (alô, general Augusto Heleno!)

Em troca de salários polpudos, mordomias e prestígio, os militares, hoje, batem continência à Bolsonaro e muitos apoiam seu plano de melar as eleições. Do meio do governo para cá, passou-se a dizer que Bolsonaro tornou-se refém do Centrão.

Aconteceu o contrário. Depende do dono da caneta mais cheia de tinta da República a liberação de dinheiro para o pagamento de emendas parlamentares ao Orçamento. Na prática, o Centrão foi que virou refém de Bolsonaro, e por isso não o despreza.

No dicionário dos políticos em geral, inexistem as expressões “afronta à soberania nacional”, “constrangimento”, “humilhação” e “vergonha”, todas perfeitamente aplicáveis à negociata sugerida por Bolsonaro a Biden. Falta também a expressão “negociata”.