Material cedido ao Metrópoles

Em evento com os funcionários para falar de compliance, a advogada contratada discursou sobre como avalia que as mulheres devem se portar

Uma palestra sobre integridade e ética no ambiente de trabalho deixou funcionárias terceirizadas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) desconfortáveis. Durante um treinamento realizado às vésperas do feriado da Semana Santa, a palestrante de empresa contratada pela autarquia vinculada ao Ministério da Educação (MEC) abordou o tema sobre assédio contra mulheres falando sobre como “posturas” das mulheres poderiam evitar a situação.

Após o evento, as participantes sentiram-se culpabilizadas por qualquer tipo de assédio que viessem a enfrentar dentro do ambiente de trabalho. Ao sair do local, elas ligaram para a reportagem do Metrópoles e relataram ter sentido que a responsável por ministrar conteúdo de código de integridade teria sugerido que roupas e comportamentos poderiam provocar o assédio, como se isso não fosse culpa exclusivamente do assediador.

As participantes gravaram parte das falas da palestrante, identificada apenas pelo primeiro nome como Suzana. Elas começaram a gravar após o sentimento de que os conselhos da também advogada não as representava. No áudio enviado ao Metrópoles, Suzana diz:

“Tem toda uma postura que a mulher têm que ter no ambiente do trabalho. As mulheres vão ser sempre assediadas, porque elas são bonitas. A mulher tem que ter um pouco de cuidado para não se permitir ser assediada. A gente tem que saber colocar um basta nisso”.

Ouça:

“Foram três palestras na quinta-feira (14/4), com três grupos. A primeiro ocorreu às 10h, e as colegas de trabalho chegaram relatando a fala dela. As outras duas foram de tarde. Ela falou que a mulher tem que ter postura e se respeitar para evitar o assédio. Foi, inclusive, questionada na última palestra do dia. Nos sentimos desrespeitadas como mulheres”, afirmou uma das colaboradoras do FNDE, que participou do treinamento.

Integridade e ética

As palestras de integridade e ética fazem parte do roll de eventos de treinamento da empresa G&E Serviços, contratada pelo FNDE, para seus colaboradores. Os empregados em geral são chamados por ordem alfabética.

No caso dessa série de treinamentos, com a próxima palestra prevista para esta terça-feira (19/4), o FNDE informou que “a palestra foi organizada pela G&E Serviços Terceirizados aos funcionários contratados pela empresa junto ao FNDE. A empresa apenas utilizou o espaço do auditório para apresentação aos funcionários da funcionalidade tecnológica para o registro de frequência (ponto eletrônico)”, informou por meio de nota.

A reportagem do Metrópoles questionou o FNDE sobre o conteúdo ministrado e o que pensa a autarquia sobre o tema. A assessoria respondeu que: “Esse treinamento está previsto em contrato e é de inteira responsabilidade da empresa”.

O que diz a palestrante

Metrópoles entrou em contato com Suzana, responsável pelo trabalho de compliance e treinamento da G&E Serviços. À reportagem, Suzana confirmou que era ela a palestrante, mas não quis informar seu sobrenome por alegar que não queria seu nome vinculado a esse contexto. Afirmou que suas falas foram descontextualizadas e que não houve qualquer intenção ou momento em que ela culpou qualquer mulher por assédio sofrido.

“Eu sou mulher. Jamais faria isso. O que eu disse foi no sentido de esse problema existir e precisar ser combatido. É uma questão de postura. As pessoas distorceram o que eu falei”, disse a especialista em compliance.

Suzana ainda demonstrou espanto com a denúncia contra ela: “O que eu fiz foi mostrar os canais de denúncia, de lutar contra essa prática. O treinamento é sobre integridade, riscos, precaução. Foi tudo nesse sentido”, alegou a palestrante da empresa contratada pelo FNDE.

A palestrante ainda relatou que ela foi interpelada por participantes do evento no FNDE no dia da apresentação. “Elas falaram comigo sobre esse sentimento. Eu pedi desculpas e disse que não foi minha intenção em nenhum momento. A ideia é proteger, mostrar meios de proteção, de denúncia”, completou.