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Para especialistas, fenômeno tem atingido principalmente o setor de energia, e não deve acabar tão cedo

João Pedro Malar   do CNN Brasil Business

O combate às mudanças climáticas tem ganhado cada vez mais força e urgência, conforme elas se intensificam e resultam em fenômenos com efeitos negativos para a economia e sociedade como um todo. Esse cenário tem gerado um novo fenômeno, a chamada inflação verde.

Como o nome sugere, esse tipo de inflação está ligada às medidas que têm sido tomadas por governos de modo a descarbonizar a economia. Uma das áreas mais importantes nesse processo é a de energia, e por isso ela tem sido uma das mais impactadas pela inflação verde.

Entretanto, conforme a descarbonização se intensifica, outros setores devem ser atingidos. O próprio Brasil não deve conseguir se esquivar desse tipo de alta de preços, por mais que tenha uma matriz elétrica bem mais limpa que a média mundial.

O que é a inflação verde?

Otaviano Canuto, coordenador do Centro para Macroeconomia e Desenvolvimento, afirma que, antes de entender o que é inflação verde, é importante lembrar que nenhuma alta de preços ligada a esse fenômeno chega ao mesmo nível do impacto econômico projetado se nada for feito para lutar contra as mudanças climáticas.

Ou seja, por mais que esse fenômeno afete negativamente as economias, ele acabou sendo inevitável, ainda mais devido à demora dos países para iniciar a descarbonização de suas economias e a transição energética, exigindo que esses processos ocorram mais rapidamente agora.

Gesner Oliveira, professor da FGV, define a inflação verde como “uma pressão persistente de aumento de preços derivada da mudança nos preços relativos associados à transição energética, para uma descarbonização da economia”.

Segundo Canuto, existem três áreas principais na economia hoje que devem ser impactadas pela inflação verde.

A primeira está ligada à precificação ou taxação de produtos e empresas pelo carbono emitido em seus processos. Enquanto as empresas não conseguirem descarbonizar, a tendência é que repassem, em algum nível, os custos a mais com essas taxas aos consumidores, por mais que elas sirvam para incentivar o processo.

Em segundo lugar, há a área de minerais. A tendência, afirma Canuto, é de ocorrer um choque de alta de preços de metais com uso intensivo para armazenamento e produção na cadeia de fontes renováveis.

“Baterias, armazenamento, gera uma demanda enorme, e as próprias fontes renováveis demandam as mesmas matérias-primas, que são materiais de painéis, turbinas. Isso deve atingir principalmente lítio, cobalto, níquel e cobre”, diz.

Como a oferta de minerais demora para subir, ela não reagirá rapidamente ao aumento de demanda, e os preços devem subir no curto prazo, assim como os de equipamentos de energias renováveis. “É um novo superciclo de preços. Encarece energia eólica e solar, além de carros elétricos”.

Oliveira afirma que, no caso dos combustíveis fósseis, a tendência é de dois movimentos. Primeiro, a queda nos investimentos, inclusive para encontrar novas áreas de exploração, deve se manter, com isso, há uma queda na oferta, o que deve levar a uma alta nos preços.

“O preço dos fósseis tende a subir porque vão investir e explorar menos, e o preço das renováveis também tende a subir, porque a demanda cresce muito. Com isso, o preço da energia sobe, e isso se dissemina na economia”, diz.

E a energia a terceira área afetada pela inflação verde. Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), afirma que é nela que o fenômeno mais tem ocorrido e se mostrado ao público.

A transição da lenha para o carvão, aí carvão para o petróleo, eram transições determinadas por questões econômicas. A transição agora é apoiada no fator ambiental, e não devemos ter fontes monopolistas como o carvão e o petróleo, serão matrizes diversificadas”, diz.

Porém, como as renováveis hoje ainda não conseguem atender toda a demanda global, a tendência é que os preços subam, incluindo as contas de luz.

Para Canuto, “mesmo com avanços tecnológicos nas renováveis, ainda há evidentemente um diferencial de custos em relação às fósseis, então a mudança implica, até que o diferencial de custos caia, em um diferencial de custos. Na literatura se chama de prêmio verde, um custo adicional”.

Inflação verde em 2021

A discussão em torno da inflação verde ganhou força em 2021, exatamente porque, para alguns estudiosos, parte da inflação global observada no ano passado está ligada ao processo de transição energética dos países.

“A gente viu que no ano passado, com a pandemia, aumentou a demonização de fontes fósseis. Em 2021, com a economia voltando a crescer, se verificou que não tinha energia renovável suficiente para sustentar o crescimento econômico, e aí os preços da energia dispararam”, diz Pires.

Gesner Oliveira afirma, porém, que em 2021 as razões para a alta de preços foram mais conjunturais – como falta de chuvas no Brasil e de ventos na Europa afetando renováveis – do que uma pressão persistente ligada a essa inflação.

Mas há um país que parece ter sido diretamente afetado pela inflação verde, a China. “A China tem um desafio muito maior que o Brasil, porque a transição energética é mais difícil. É um país com matriz muito mais suja, dependente de combustíveis fósseis, e do pior dele, o carvão, então a transição é mais cara”, afirma.