Nas manchetes dos jornais nesta sexta-feira, só há um tema: o indulto concedido por Jair Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira, condenado na quarta pelo STF a 8 anos de prisão por ataques às instituições democráticas e ao Judiciário. O presidente alega que a corte tenta calar a voz de um parlamentar. Mas se trata claramente de perdoar um criminoso que atenta contra a democracia. O indulto de Bolsonaro é em si um novo crime do presidente. O assunto repercute também fora do país — leia em Brasil na Gringa.

As manchetes convergem em tom negativo para o anúncio do presidente, mas o tema vai esquentar nas próximas horas e é prenúncio de uma nova escalada da crise institucional entre os poderes. A posição anti-democrática de Bolsonaro é um claro prenúncio de um auto-golpe.

Eis as manchetes. FolhaBolsonaro anuncia perdão a SilveiraEstadãoBolsonaro perdoa crimes de Daniel Silveira e desafia STF. O GloboEm afronta ao STF, Bolsonaro edita decreto e perdoa SilveiraCorreioBolsonaro concede indulto a deputado condenado no STFValorEmpresas buscam acordos para sair de crise mais rápido.

O mais bizarro é a notícia de que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco diz que perdão a Daniel Silveira não pode ser revogado. Ele alega que, ‘certo ou errado’, ato do presidente está dentro de sua competência constitucional. A repercussão em toda a blogosfera e na mídia comercial é amplamente negativa. Valor revela que o presidente da Câmara vai ao STF para decidir sobre cassação. Arthur Lira tenta fazer com que Congresso tenha a última palavra no caso de cassações de parlamentares.

Na Folha, muitas reportagens e textos analíticos. Em um deles, o diário lembra que, em 2018, Bolsonaro prometeu que não daria indulto como presidente. Jornal relata que o perdão a Daniel Silveira não anula cassação e deputado está inelegível, dizem ministros do STF. O Painel traz o ex-ministro Ayres Britto alertando: indulto não é cheque em branco e decreto de Bolsonaro é inconstitucional. O colunista Reinaldo Azevedo é direto: Um decreto imoral, ilegal e golpista.

No GloboVera Magalhães adverte: Indulto de Bolsonaro a Silveira é mais um insulto ao STF“Se os representantes das instituições anuírem ao indulto que é, na verdade, uma afronta a uma decisão praticamente unânime do STF, qual o limite para a escalada de Bolsonaro em usar prerrogativas do cargo para desrespeitar os demais Poderes?”, questiona.

Míriam Leitão reforça: Bolsonaro usa prerrogativa que tem para conspirar contra a democracia. Já Bernardo Mello Franco ironiza: Daniel Silveira é versão anabolizada do ʽhomo bolsonarusʼ. No EstadãoEliane Cantanhede resume a crise numa palavra: guerra“Bolsonaro endossa o condenado e os ataques à democracia e ao STF”, aponta.

Apesar do foco na eterna crise institucional, o escândalo de corrupção na Codevasf continua rendendo novas denúncias. Estadão  revela que empresas de favorecidos com o auxílio emergencial vencem pregão da Codevasf“Governo empenhou um montante de R$ 19,3 milhões para pagar firmas selecionadas em licitações do órgão”, denuncia o jornal. As empresas selecionadas venceram pregões para fornecer picapes de tração 4 x 4 à estatal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Regional. O órgão é controlado por partidos do Centrão.

E a Folha revela que o TCU identificou R$ 146 milhões para kits de robótica, e área técnica sugere suspender repasses realizados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Processo tem como base a denúncia sobre transferências que priorizam contratos com empresa ligada ao presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), um dos líderes do Centrão. O FNDE já efetivou empenhos milionários para a compra de kits de robótica, identificou a área técnica do TCU. O recurso é destinado a 29 municípios de Alagoas e 10 de Pernambuco.

LULA

Folha e outros jornais noticiam que o PT afastou o marqueteiro Augusto Fonseca do comando da pré-campanha de Lula em meio à crise na área de comunicação. Legenda informa que não contratou empresa por razões administrativas e financeiras. Valor diz que a crise vivida pelo partido se aprofundou.

Dirigentes petistas vinham pressionando pela substituição do ex-ministro Franklin Martins, que coordena a comunicação e que indicou Fonseca para o posto. A torcida entre líderes do PT é que Franklin também peça para sair de suas funções, o que levaria ao fim do impasse. Mas Lula tem dito a petistas que não tem outros nomes para a missão.

Ainda na Folha, outra notícia é que Lula acena a evangélicos e jovens, enquanto PT tenta se esquivar de crise. “Bolsonaro vive enganando muita gente boa da igreja evangélica”, diz petista. Ele pediu que jovens tirem seu título de eleitor e também acenou aos evangélicos durante evento em Heliópolis, na capital paulista, num momento em que sua pré-campanha enfrenta uma crise de comunicação e vaivém de narrativas.

Painel da Folha informa que o senador Jaques Wagner está  conversando com Google e Amazon sobre possível governo Lula. Interlocutor de Lula, senador baiano reuniu-se com gigantes de tecnologia durante viagem aos EUA. Ele aproveitou sua recente participação na Brazil Conference, na região de Boston, para conversar os gigantes do setor de tecnologia. As duas empresas o procuraram para perguntar sobre as perspectivas econômicas em um eventual governo Lula. Também queriam saber o que o ele e o PT pensam sobre o funcionamento e as regras de regulação das “big techs”.

E o Valor revela que o PSD de Minas acena para Ciro Gomes, porque não consegue fechar um acordo com o PT. Petistas insistem em lançar candidato próprio ao Senado. Diz o jornal: “Se PT e PSD não chegarem a um acordo nos próximos dias, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficará fora do palanque do ex-prefeito e candidato ao governo do Estado Alexandre Kalil (PSD)”, aponta. O partido de Gilberto Kassab já decidiu competir com chapa pura em Minas Gerais, tendo Kalil concorrendo ao governo estadual, o deputado Agostinho Patrus, como vice, e o senador Alexandre Silveira buscando a reeleição. O PT impôs como condição para Lula apoiar Kalil a candidatura do deputado Reginaldo Lopes ao Senado.

MEIO AMBIENTE

Em ampla reportagem, o inglês The Guardian destaca os protestos indígenas no Brasil contra a política devastadora do presidente Jair Bolsonaro. É nossa terra também: os povos indígenas do Brasil fazem suas vozes serem ouvidas“Em meio a dança e canto, 200 diferentes etnias indígenas se reuniram no Acampamento Terra Livre anual para exigir ações sobre direitos à terra e meio ambiente”, resume.

“Sob o título Retomar o Brasil: demarcar os territórios e indigenizar a política , o 18º Acampamento Terra Livre (ATL) viu 8.000 indígenas em Brasília dar voz à luta em curso para salvar sua cultura e forma de vida”, reporta. “Joênia Wapichana, primeira deputada indígena do país, disse: ‘A ATL é uma oportunidade de unir lideranças indígenas e brasileiras de todo o país para defender seus direitos constitucionais’”.

O jornal informa que os indígenas protestam contra o que chamam de “combo da morte” de projetos de lei relacionados ao meio ambiente que estão sendo considerados pelo Congresso. Entre eles estão o PL 191, que permite mineração e outras explorações comerciais em áreas indígenas, e o PL 490, que alteraria as regras de demarcação de território indígena.

BRASIL NA GRINGA

Reuters distribui despacho global relatando que Bolsonaro perdoa aliado político, esnobando Supremo Tribunal“O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, disse na quinta-feira que perdoaria um deputado federal aliado que foi condenado a quase nove anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal, uma medida que provavelmente aumentará as tensões entre o Executivo e o Judiciário do país durante um ano eleitoral”, aponta a agência.

O argentino Clarín classifica a medida adotada pelo presidente brasileiro como polêmica. Brasil: Jair Bolsonaro indultou deputado condenado à prisão pelo STF“É para Daniel Silveira, condenado na véspera a oito anos de prisão por ameaças às instituições democráticas”, resume.

O jornal espanhol El País destacou na edição desta quinta-feira que deputado aliado de Bolsonaro foi condenado a nove anos de prisão por atacar a democracia“Suprema Corte do Brasil adota decisão contra Daniel Silveira por 10 a 1, o que é um revés para o presidente”, escreve a correspondente Naiara Galarraga Gortázar.

No português Diário de Notícias, o correspondente João Almeida Moreira descreve Bolsonaro como o Midas do avesso. “O presidente do Brasil que, infelizmente, não é lenda, mas também é mais ganancioso do que inteligente, pediu aos deuses da política o talento de destruir tudo aquilo em que mexe”, aponta. Ele lista os retrocessos impostos por Bolsonaro: 1) na economia, com desemprego recorde. 2) no meio ambiente, com a destruição da Amazônia. 3) na educação e na cultura, com ataques a universidades e artistas. “Na relação com os outros poderes, Bolsonaro ameaçou a democracia, atacou o Supremo, a imprensa e o sistema eleitoral, celebrou a ditadura, chamou as Forças Armadas de suas e entregou o Orçamento ao setor mais corrupto do Congresso”, alerta.