Sabrina Fernandes (Foto: Reprodução YouTube (Rede Brasil Atual))

Socióloga falou sobre importância de criar condições para construção de nova esquerda antissistêmica e declarou voto em Lula no primeiro turno; assista na íntegra

 

Por Camila Alvarenga, no Opera Mundi – No programa 20 MINUTOS ENTREVISTA desta quarta-feira (20/04), o jornalista Breno Altman entrevistou a socióloga Sabrina Fernandes, fundadora e produtora do canal de YouTube Tese Onze.

Fernandes analisou a ascensão de uma extrema direita antissistema no mundo, que atrai inclusive a classe operária, e a ausência de um movimento semelhante na esquerda.

“Acho que há um mérito da direita em se organizar, principalmente usando a internet, se posicionando como antissistêmica a partir da mobilização dos afetos, principalmente do desamparo. A direita se colocou como quem dará voz aos desamparados”, refletiu.

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A socióloga apontou para aspectos do neoliberalismo que fragmentam os sujeitos, que levam à perda da solidariedade porque acaba com as experiências conjuntas que anteriormente havia nas fábricas, por exemplo, ou no ambiente estudantil.

“Se olha para a educação como uma mercadoria. As pessoas se formam na universidade pensando no mercado de trabalho, não no aprendizado que estão adquirindo. E não veem o outro como alguém que está ali com elas, veem como um concorrente, acham que estão sozinhas, entrando para um mercado de trabalho que não oferece empregos. Há uma sensação de que não há para onde correr”, discorreu.

Somado a isso, a produtora do Tese Onze  apontou falhas na esquerda que não conseguiu se apresentar como alternativa: “as pessoas sentem que a esquerda não está preparada para dar as respostas necessárias”, reforçou. Hoje, salvo raros casos, não existe uma chamada esquerda antissistema.

Esquerda antissistema no Brasil

A necessidade de uma esquerda antissistêmica, porém, segue existindo. Para ela, “tem que ser possível” sua reconstrução no Brasil. Assim, a socióloga destacou ser necessário criar condições para que ela renasça, “para que venha uma esquerda que não tenha medo de dizer seu nome, que não diminua pautas, que não fique dizendo que agora não é a hora, porque se não chegam as eleições e as cartas estão dadas, porque nós não construímos as condições que precisávamos para dar as cartas”.

Fernandes também listou as características que uma esquerda revolucionária deve ter: “tem que ser ecossistêmica, precisa ter enraizamento territorial e precisa criar resiliência para não sofrer tanto com os ataques. Precisamos de táticas diferentes de acordo com as particularidades de cada território, mas com uma luta integrada. Faz falta um projeto nacional, mas sem abandonar a visão regional. A esquerda brasileira também não pode se isolar do que está acontecendo ao seu redor, principalmente na América Latina — e não só com os governos latino-americanos, mas com os movimentos sociais mobilizados. O internacionalismo é vital, principalmente diante de uma crise climática que nos une a todos”.

“Mas quando a gente fala sobre poder popular na institucionalidade, isso não pode ser um termo vazio”, alertou. É necessário governar reconhecendo a força dos movimentos e entendendo a diversidade como algo poderoso e vantajoso, até porque é desses setores que virá a mudança real, na opinião da socióloga, não da conquista institucional propriamente dita.

“A questão revolucionária é essencial, mas não só dos meios de produção, dos valores também, de como a gente produz e para que. Ir além do capital é essencial. Para além disso, precisamos segurar o tranco e entender que não temos força para fazer a revolução amanhã. Não adianta armar o povo com o povo estando extremamente conservador. Precisamos saber que não vamos ter aquele sucesso eleitoral que queremos e que vamos precisar pressionar o governo mesmo que ele seja de esquerda, sem ter medo”, defendeu.

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Para Fernandes, a Venezuela pode servir de inspiração na construção dessa nova esquerda antissistêmica, principalmente no que diz respeito à sua construção desde a base e a capacidade unificadora do projeto chavista.

“A esquerda chavista também sabe trabalhar a memória melhor do que qualquer esquerda brasileira, sabe mostrar ao povo o que ele conquistou e o que ele pode perder, a gente tinha que aprender isso”, citou.

Por outro lado, apesar de ser uma referência em vários aspectos, a socióloga considerou que o chavismo também deve ser superado, “algo que tem que ser visto como uma vantagem, não como uma derrota. Por exemplo, a Venezuela precisa enxergar sua soberania de outra forma. Deposita-a no petróleo, mas ele não tem sido essa vantagem que colocam, pelo contrário”.