Nas últimas semanas, mais de 8 mil pessoas de 200 povos indígenas deixaram suas casas para participarem do ATL

Ao lado da menina indígena, Jdejdkô Xikrin, um garoto de 15 anos, com o rosto tomado por sorriso e espinhas, também quer acompanhar o discurso em silêncio. “Estamos aprendendo. Muita coisa está entrando na nossa mente”, diz ele.

Kirixi viajou quatro dias de ônibus com os pais para cruzar os 3 mil quilômetros que separam o Distrito Federal da aldeia onde vive, nas margens do rio Tapajós, em Jacareacanga, (PA). Jdejdkô partiu de Marabá (PA) com a família. Depois de 1.500 quilômetros de estrada, o ônibus estacionou no “eixo monumental”, a via que dá acesso à Esplanada dos Ministérios. Como Kirixi e Jdejdkô, milhares de crianças e jovens passaram os últimos 11 dias em Brasília, para protestar pelos direitos dos povos originários. É a nova geração indígena, mais atenta do que nunca sobre seu próprio futuro.

Nas últimas semanas, mais de 8 mil pessoas de 200 povos indígenas deixaram suas casas para participarem do ATL, que aconteceu entre os dias 4 a 14 de abril. Reconhecida como a maior Assembleia dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil, a manifestação acontece anualmente desde 2004. Naquele ano, nasceu como uma cobrança dos povos originários pela demarcação de seus territórios. Hoje, essa bandeira segue como principal luta, mas outras prioridades passaram a fazer parte das cobranças indígenas, dada a crescente ameaça aos seus direitos.

O Projeto de Lei 191/2020, do governo Jair Bolsonaro, que abre as terras indígenas para exploração em grande escala de mineração, hidrelétricas e projetos de infraestrutura, esteve no centro dos debates. O texto tramita no Congresso e já passou pela Câmara. Já o Projeto de Lei 490/2007, que impõe o chamado marco temporal, quer revisar terras indígenas e determinar que são terras indígenas apenas aquelas que estavam ocupadas pelos povos tradicionais em 5 de outubro de 1988.

Em paralelo, correm ainda agendas com impacto direto na vida dos indígenas, como o PL 6.299/2002, que libera mais agrotóxicos, e o PL 3.729/2004, que flexibiliza os processos de licenciamento ambiental. Ainda tramitam no Congresso outras duas propostas – PL 2.633/2020 e PL 510/2021 – que tratam de regulação fundiária e podem favorecer a regularização de grandes áreas que foram alvo de processos de grilagem.

Consciência

A necessidade impõe aos adolescentes indígenas que todos esses números e letras do mundo político e distante de Brasília deixem de ser meras burocracias criadas pelos não índios. “Temos que tomar essa consciência o mais cedo possível”, diz Moya Guarani, de 21 anos, que saiu de Santa Catarina para participar do Acampamento Terra Livre, pela segunda vez. “Essa é uma manifestação de todos os povos. E nós somos a futura geração que está chegando.”

Na luta política travada pelos povos indígenas, Alice Pataxó frequenta o ATL desde os seus 14 anos de idade. Vinha aos encontros com os pais. Cresceu ouvindo as manifestações, fazendo as passeatas pela Esplanada. Hoje, com 23 anos, deixou a terra indígena Barra Velha, na região de Porto Seguro (BA), para participar de mais uma edição do ato. “É mais um capítulo que estamos escrevendo nesta história. Esse movimento também é a expressão da nossa juventude indígena, que deve ser cada vez mais presente.”

Frutos plantados pela mobilização são colhidos até hoje. Foi do ATL que saiu a atitude para que fosse formalmente criada, por exemplo, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), em novembro de 2005. Tudo se deu após deliberação política tomada durante o evento realizado naquele ano.

Das marchas e manifestações brotaram outras iniciativas, como a criação do Conselho Nacional da Política Indigenista (CNPI), da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). O movimento levou ainda à criação da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial das Terras Indígenas (PNGATI), com participação de representantes dos povos indígenas. Hoje, muitas destas conquistas estão sob ameaça constante.

Neste último dia de manifestações, os povos tradicionais começam a se mobilizar para voltarem para casa. Ao lado da amiga Kirixi Bipõm, Elisa Munduruku, de 23 anos, não esconde a saudade que está sentindo de voltar para sua aldeia, em Jacareacanga (PA). “Não vejo a hora. São quatro dias de viagem pela frente. Vamos demorar pra chegar, mas logo estaremos em casa”, diz ela, que promete regressar a Brasília no ano que vem.

O retorno à capital federal em 2023 também está nos planos de Maria Guajajara, que carrega no colo o pequeno Sotcha Veríssimo Guajajara. O bebê de quatro meses sorri no colo da mãe. Ele ainda não sabe, mas já é mais um pequeno guerreiro em formação.

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Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil