Na visão de liderança do movimento negro, artigo publicado no jornal propaga ideias com teor supremacista branco

Paulo Motoryn e Gabriela Moncau
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

O historiador Douglas Belchior, coordenador da Uneafro Brasil e integrante da Coalizão Negra por Direitos, defende que a sociedade cobre as empresas que anunciam na Folha de S.Paulo depois que o jornal publicou o artigo Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo, do escritor Antonio Risério, no qual defende a existência de um suposto racismo reverso no país.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Belchior fez duras críticas à Folha e ao seu diretor de Redação, Sérgio Dávila. O historiador valorizou a iniciativa de 186 jornalistas da publicação, que escreveram uma carta à direção da empresa expressando “preocupação com a publicação recorrente de conteúdos racistas”.

:: Não basta que os intelectuais e a imprensa não sejam racistas: eles devem ser antirracistas ::

Na visão de um dos expoentes do movimento negro no país, o artigo de Antonio Risério significa mais do que uma tentativa de aumentar a audiência da Folha. “Esse tipo de formulação é colocada sobre a mesa com o intuito de criar substância sobre o tema e agregar apoiadores à ideia”, afirma Belchior.

“O Brasil é um país que se caracteriza pelo apego a formulações absurdas. Nós temos um governo que chegou ao poder a partir de informações absurdas. Por isso, é importante contestar”, diz o historiador.

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato: No artigo, Antônio Risério trata o racismo como se não fosse um sistema de poder, reforça a ideia de que existe uma onda mundial anti-brancos que precisa ser combatida. Até que ponto essas ideias. Até que ponto essas ideias representam pensamento que tem relevância; e até que ponto são escritas para gerar indignação e conseguir audiência 

Douglas Belchior: Eu acho que, talvez, haja uma vontade ou uma crença de que exista uma onda anti-brancos acontecendo no mundo. As experiências de movimento negro no mundo nunca foram anti-branco, mesmo tendo motivo de ser, nunca foram anti-branco. Sempre foram movimentações reivindicando igualdade, justiça, reparação histórica.

Óbvio que que não existe nenhuma onda. Ele eventualmente até acredita nisso, mas isso não existe. O que há é uma estratégia de chamar a atenção e criar polêmica com esse tipo de abordagem. Da parte da parte dele, sem dúvida. Ele expõe suas ideias explicitamente racistas. Não é a primeira vez. Não é o primeiro artigo que ele coloca sobre essas questões. Ele tem uma trajetória de posicionamento racistas, de posicionamentos contra as políticas de reparação e políticas de promoção de igualdade racial do contexto. Ele é uma pessoa explicitamente e notadamente de posicionamentos racistas. Por parte da Folha, há irresponsabilidade e a reprodução explicitamente de racismo institucional, à medida que ela, enquanto instituição, promove esse pensamento.

Qual você acha que é o melhor jeito de reagir a isso? Vale a pena gastar o tempo e energia respondendo esses argumentos? 

Mais do que compartilhamento e polêmica, esse tipo de formulação é colocada sobre a mesa com o intuito de criar substância sobre o tema e agregar apoiadores à ideia. Durante muitos anos, o movimento negro se dedicou à desconstrução do mito da democracia racial, uma ideia tão absurda na realidade brasileira quanto é absurda a tese do racismo reverso. A realidade da vida sempre nos mostrou que nunca houve democracia racial, mas ela foi fomentada por décadas. O movimento negro foi obrigado – claro que em outro momento da tecnologia e da possibilidade de discussão pública – a contestar.

É necessário contestar esse tipo de ideia absurda porque isso pega. As pessoas se apegam a determinadas formulações. Aliás, o Brasil é um país que se caracteriza pelo apego a formulações absurdas.

Nós temos um governo que chegou ao poder a partir de informações absurdas. Por isso, é importante contestar.

É importante demonstrar e explicitar o que parece óbvio para um determinado grupo, mas que não é óbvio para a maioria da população.

Durante a semana, 186 jornalistas da Folha publicaram uma carta manifesto criticando o jornal por estar recorrentemente publicando conteúdos racistas. A resposta da direção veio em formato de uma reportagem assinada por uma das editoras do jornal e, nela, a chefia diz que o conteúdo da carta vai contra a pluralidade e a defesa da liberdade de expressão. O que que você acha desse tipo de argumento que evoca o tema da liberdade de expressão? 

É necessário fazer uma manifestação de solidariedade aos jornalistas e trabalhadores negros da Folha, que são cotidianamente expostos ao racismo que é promovido na empresa. Em segundo lugar, demonstro meu respeito absoluto aos jornalistas brancos que tiveram coragem de adotar uma postura antirracista e enfrentar o patrão. Não é pouca coisa essa manifestação dos jornalistas, ela é histórica. Nós nunca tivemos na história da imprensa brasileira uma ação coletiva nesse nível. Em um país racista, profundamente punitivista aos que enfrentam interesses corporativos, é preciso dizer que isso está na história. É uma manifestação muito importante.

O posicionamento da direção da Folha reafirma a carta feita pelos jornalistas e carimba a denúncia. A nota demonstra que os jornalistas estão certos porque o Sérgio Dávila [diretor de Redação da Folha], em sua carta, torna concreto e fornece uma prova real sobre aquilo que os jornalistas denunciaram.

Folha, trajada e disfarçada de um espaço de defesa de democracia, o que é habitual no discurso das elites brasileiras, promove opressões, a partir do discurso da busca pela igualdade.

Ele relativiza o racismo mediante a não-relativização de outros temas que para a Folha são caros, como a discussão do Holocausto. O exemplo que os jornalistas dão no próprio texto é suficiente e definitivo. Seria tão bonito e coerente com o discurso que a Folha promove hoje em dia que reconhecessem o erro, mas o Sérgio Dávila nos fez o favor de explicitar hipocrisia.

Risério, e em oposição ao identitarismo, termo usado majoritariamente por pessoas e setores que criticam movimentos ligados às lutas LGBTQ, feministas e antirracistas. Na própria esquerda, muitas vezes as pautas desses movimentos são descritas como se fossem sectárias ou meramente subjetivas e descoladas das questões de classe. Como que você vê essa discussão em torno do termo “identitarismo”? 

Parte de onde vem esse debate é resultado de uma miopia que a lupa racista causa no sujeito. É uma deturpação da leitura da realidade e da imagem da sociedade brasileiro. Eu reconheço que parte do campo progressista brasileiro, apesar de bem intencionado e de defender a tese de igualdade, é racista.

Para essa parte, eu reconheço uma miopia, fruto de uma lente racista que se usa para interpretar o mundo, ignorando que as agendas políticas do enfrentamento ao racismo, ao patriarcado e às questões de gênero LGBTQIA+ são lutas por direitos dessas populações. Isso é reduzido de maneira pejorativa, ao termo “identitarismo”, que até pela sua raiz de significado não há um problema em sua identidade, porque todas as pautas são identitárias.

O branco é identitário. A identidade é como a gente se identifica como sujeito no mundo. Houve uma construção pejorativa do significado para desqualificar as lutas por direitos de segmentos que estão historicamente oprimidos e excluídos. Diante da força da mobilização de luta por direitos, tenta-se desqualificar a luta e a potência da sua reivindicação. É disso que se trata.

Isso também ocorre por parte da direita e de grupos racistas históricos, como é o caso destes que surgem do esgoto da história. O grupo que assina essa carta traz figuras emblemáticas dos grupos que se opuseram às cotas no momento da sua implantação, há 20 anos. Esse grupo político defende um ideário de que não existe racismo, de que isso não é um assunto pertinente no Brasil. O Sérgio D’Ávila e a Folha de S.Paulo, enquanto empresa, fazem o desserviço de despertar das profundezas do esgoto da sociedade brasileira essas pessoas que estão ali representadas nessa carta, o que é lamentável.

Eu dei uma entrevista na própria Folha falando sobre isso no ano passado, no auge do debate racial, quando o George Floyd foi assassinado, e que surgia no Brasil manifestações de organizações e grupos defendendo a democracia, por parte de jornalistas, intelectuais, artistas, percebendo a merda que fizeram elegendo o Bolsonaro, se colocavam preocupados com a democracia. Naquele momento, surgiram vários grupos de defesa da democracia.

Nesse momento, em que explodiu a morte do George Floyd, esses grupos defendendo democracia no Brasil se sentem na obrigação de se manifestar contra o racismo e a violência racial nos Estados Unidos. Afinal de contas, é uma incoerência defender a democracia e não considerar o racismo. Só que aí há um constrangimento: como é que esses setores vão se manifestar contra o racismo nos Estados Unidos e se calar diante do racismo e da perversidade racial brasileira?

É nesse contexto que o movimento negro lança um documento chamado “Enquanto houver racismo, não haverá democracia” cobrando exatamente essa coerência porque ou se pratica o que se diz ou você explícita a hipocrisia.

É isso que está acontecendo com a Folha. Em momentos cruciais, a verdade aparece, porque a prática precisa estar adequada ao discurso. O Sérgio D’Ávila e a Folha cometem uma incoerência pública enorme, porque ele manifesta um posicionamento que contradiz o que a Folha diz que é. E ainda expõe uma contradição fundamental: o fato de que, graças ao movimento negro, o debate racial está colocado sobre a mesa no Brasil, não é possível esconder que ele existe ou relativiza-lo, e que ser racista hoje, em certa medida, dá prejuízo.

 

É preciso fomentar a diversidade até por uma necessidade económica. Você tem grandes movimentações de desmonetização de iniciativas da internet, de empresas, de comunicadores, porque eles têm posicionamento racista, certo? O problema é que, ideologicamente, eles são racistas. Então, há uma contradição em si: porque a empresa precisa do lucro e, para manter o lucro, é preciso ter uma postura, em certa medida, razoável e coerente com as debate da diversidade. Mas eles são, pela própria natureza, racistas. Esses dois interesses se chocam em momentos determinados. Está acontecendo isso com a Folha agora.

A gente precisa questionar os membros do Conselho da Folha que estão publicamente comprometidos com a diversidade e com a luta antirracista. Nós temos que questionar os patrocinadores da Folha. Eles vão continuar patrocinando uma empresa publicamente racista, que defende isso publicamente, como fez o Sérgio Dávila? É preciso que a sociedade cobre isso, ou, pelo menos, a parte da sociedade que diz que é preciso enfrentar o racismo. É preciso cobrar questionar a responsabilidade dos grandes patrocinadores da Folha de S.Paulo: eles vão endossar o racismo?

Edição: Lucas Weber