Com apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e atores da capital, filme alerta para o trabalho escravo no país

Lúcio Flávio, da Agência Brasília I Edição: Débora Cronemberger

Até parece tema de um passado hediondo que ninguém gostaria de lembrar. Ou seja, meados do século 19, quando a escravidão no país, lamentavelmente, estava no apogeu. Contudo, trata-se de triste realidade que assola o Brasil recente: o trabalho escravo.

Este é o tema do drama Pureza, produção brasiliense em cartaz nos cinemas. Com orçamento de quase R$ 8 milhões, o filme contou com R$ 725 mil do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), um dos mais importantes instrumentos de incentivo às artes no DF.

O cineasta Renato Barbieri (à direita), paulista radicado em Brasília, durante as filmagens de Pureza, drama que denuncia o trabalho escravo no Brasil | Foto: Magno Barros

Baseado em fatos reais, o mais novo trabalho do cineasta Renato Barbieri é uma obra necessária e urgente. Mais do que isso: de uma relevância social gritante. Narra a saga da personagem-título em busca de seu filho prisioneiro nos confins do Brasil profundo, vítima da exploração de fazendeiros desumanos e tirânicos.

Pureza é uma obra abolicionista. É importante que as pessoas vejam esse filme com a consciência de que o Brasil nunca deixou de viver a escravidão”, lamenta Barbieri, paulista radicado na capital desde os anos 1990. “Cabe à nossa geração virar essa página”, destaca.

Baseado em fatos reais, o filme conta a saga de Pureza em busca de seu filho Abel, aliciado para trabalhar como escravo em uma grande fazenda do Pará | Foto: Divulgação

O projeto, produzido por Marcos Ligocki – que assina o roteiro a quatro mãos junto com Barbieri –, conta com atores da cidade no elenco. Exibido em 35 festivais de 18 países, Pureza já abiscoitou 28 prêmios nacionais e internacionais.

O filme contou com R$ 725 mil do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), um dos mais importantes instrumentos de incentivo às artes no DF

“Esse é um modelo em que acredito muito – o de usar recurso local nosso, do DF, para potencializar obras da cidade e atraindo mais recursos”, defende Marcos Ligocki. “Isso dá mais visibilidade para os profissionais que atuam aqui, fazendo com que eles sejam percebidos em todo o país. O cinema não tem fronteiras, e o FAC é fundamental para que isso aconteça.”

Drama da vida real

De acordo com dados da Walk Free Foundation, em 2018, 369 mil pessoas foram submetidas à escravidão no Brasil. Um deles, o filho da determinada Pureza Lopes Loyola, 75 anos, vivida nas telas pela atriz Dira Paes. Uma simples e humilde mãe do interior do Maranhão que ganhava a vida fabricando tijolos e, da noite para o dia, se viu embrenhada em um cenário de opressão e violência para salvar o filho Abel – vítima, como tantos, dessa realidade perversa.

“O filme conta uma história verdadeira e forte. Infelizmente, muita gente ainda é escravizada no Brasil. É um assunto muito atual, o trabalho escravo não é coisa do passado”Sérgio Sartório, ator

Mas ela não se deixou abater, muito menos se intimidar pela opressão do sistema. Munida de uma Bíblia, uma bolsa e a foto do filho, foi à luta e, disfarçada de cozinheira em inúmeras fazendas da Amazônia paraense, se deparou com jagunços truculentos e infindáveis situações de maus-tratos, abusos de autoridade, exploração humana e até assassinatos.

“Nesse lugar, até um boi no pasto vive melhor do que a gente”, desespera-se um dos personagens da trama, que conta com participações de vários rostos da cena cultural de Brasília.

Um deles, o ator Sérgio Sartório, chama atenção para o poder da conscientização por meio da arte. No filme o artista vive um capataz impiedoso que não dá chance para os peões escravizados.

 

 

“O filme conta uma história verdadeira e forte. Infelizmente, muita gente ainda é escravizada no Brasil. É um assunto muito atual, o trabalho escravo não é coisa do passado”, lamenta o ator. “Que todos aqueles que assistam Pureza possam divulgá-lo ao máximo para aumentar a conscientização sobre o tema.”

A luta de dona Pureza não foi em vão. Graças às suas denúncias, em 1995 foi criado o primeiro grupo especial móvel de fiscalização contra esse tipo de crime em território nacional, garantindo os direitos trabalhistas de milhares de camponeses explorados.

De lá para cá, mais de 57 mil trabalhadores foram libertados em condições análogas à escravidão. “Não podemos mais aceitar essa realidade. Temos que entrar em contato com o Brasil profundo, com o Brasil real”, pede Renato Barbieri. “É um filme do amor de uma mãe por seu filho, mas também de amor à justiça, à dignidade e à integridade”.